
Perfil de risco
No tópico anterior, vimos como a correta definição do objetivo pode influenciar na escolha do investimento. Mas, será que duas pessoas que tenham exatamente o mesmo objetivo, prazo e disponibilidade dos recursos escolheriam a mesma opção na hora de investir? A resposta é, depende.
Imagine por exemplo o objetivo da casa própria. Duas pessoas definem como objetivo juntar dinheiro para dar de entrada na compra de um apartamento daqui a 10 anos. Decidem começar a poupar e investir para isso, e definem que não precisarão utilizar o montante no decorrer desse prazo.
Em uma primeira análise, tende-se a acreditar que os mesmos investimentos atenderiam igualmente às duas pessoas. Mas, não é bem assim. Suponha que uma dessas pessoas tenha 25 anos, a outra 45. A que tem 25, já tem um apartamento que recebeu de herança, e deseja apenas um novo, maior. A outra nunca conseguiu ter a casa própria, mora ainda de aluguel, somente agora começa a planejar a compra.
Além disso, o mais jovem é empreendedor, gosta de se aventurar no mundo dos negócios. O mais velho sempre quis permanecer como empregado, na segurança, sem arriscar o seu salário.
Observem que com essas informações adicionais, já podemos perceber que, mesmo se tratando de um mesmo objetivo, essas duas pessoas podem e talvez até tenham que optar por alternativas um pouco distintas de investimento.
Portanto, além do objetivo, é preciso também levar em consideração, antes de tomar as decisões de investimento, o perfil individual do investidor, conhecido no mercado como perfil de risco. E há duas diferentes dimensões do perfil de risco que devem ser analisadas: a capacidade de assumir risco; e a disposição em assumir o risco.
Capacidade de assumir risco
A capacidade que uma pessoa tem de assumir risco, quando o assunto é investimento, está relacionada a dois fatores: à relação valor a investir/patrimônio; e à fase do ciclo de vida em que a pessoa se encontra.
Suponha que duas pessoas tenham poupado neste mês R$ 1.000,00 para investir. Para uma delas, esse montante representa a sua primeira e única poupança. A outra já tem reservas de R$ 10.000,00.
É fácil perceber que, no primeiro caso, o valor a ser investido representa 100% (R$ 1.000,00/ R$ 1.000,00) do patrimônio , enquanto para o segundo representa 10% (R$ 1.000,00/R$ 10.000,00). Ora, a primeira pessoa certamente sentiria muito mais uma possível perda do que a segunda. Por isso, diz-se que ela tem uma capacidade de assumir risco menor.
Mas além dessa relação patrimonial, há que se considerar também a fase do ciclo de vida em que a pessoa se encontra. Um jovem de 21 anos tem muito mais tempo para recuperar uma possível perda do que um senhor de 70 anos. Por outro lado, um indivíduo casado, que já tenha casa própria, já tenha pagado pelo estudo dos filhos, talvez possa arriscar um pouco mais do que outro que ainda precise se preparar para todas essas etapas da vida.
Quem escolhe correr riscos deve fazê-lo de forma consciente e estar preparado para que eventuais perdas não provoquem grandes danos. Por isso, evite aplicar a parte essencial do seu patrimônio em investimentos de alto risco.
Disposição em assumir risco
Imagine dois indivíduos de mesma idade, 25 anos, mesmo patrimônio, ambos passando pela mesma fase do ciclo de vida. Os dois definiram o mesmo objetivo, poupar para a aposentadoria, para daqui a 40 anos. Será que eles investiriam nos mesmos ativos? Será que as opções mais indicadas para um também serão para o outro?
Pode ser que não. Pode ser que em um caso, considerado o objetivo, um deles se sinta confortável em aplicar parte dos seus investimentos em renda variável, como ações, e o outro não. Talvez um deles não se sinta bem percebendo as possíveis variações no valor do seu investimento no decorrer do tempo. Portanto, mesmo que o objetivo, os prazos e a capacidade de assumir risco de uma pessoa indiquem a possibilidade de escolha de um determinado tipo de investimento, é preciso levar em conta ainda um último aspecto: a disposição em assumir risco.
No mercado financeiro, os investidores são classificados em três diferentes níveis de acordo com a disposição em assumir risco: conservador; moderado; ou arrojado.
• Conservador: privilegia a segurança e faz todo o possível para diminuir o risco de perdas, para isso aceitando até uma rentabilidade menor.
• Moderado: procura um equilíbrio entre segurança e rentabilidade e está disposto a correr certo risco para que o seu dinheiro renda um pouco mais do que as aplicações mais seguras.
• Arrojado: privilegia a rentabilidade e é capaz de correr grandes riscos para que seu investimento renda o máximo possível.
Você se considera um investidor conservador, moderado ou arrojado? Avaliar a capacidade de assumir risco é relativamente simples. Mas como medir a disposição em assumir risco? Uma autorreflexão pode ajudar.
Aqueles que têm perfil mais empreendedor, ou que preferem empregos com renda variável, pela expectativa de ganhar mais, tendem a ser moderados ou arrojados. Por outro lado, aqueles que não se arriscam no mundo dos negócios, ou que preferem alternativas de emprego estáveis e previsíveis, com salários fixos, talvez sejam mais conservadores.
O histórico de investimento também dá sinais. Se os investimentos sempre ficaram na caderneta de poupança, por exemplo, ou no máximo em títulos de bancos tradicionais, o investidor pode ser considerado mais conservador. Diferente dos que já aplicaram parcela de seu patrimônio em renda variável (desde que sabendo o que estavam fazendo), que podem ser mais moderados ou arrojados.
O mercado financeiro precisa seguir regras que exigem que o produto de investimento indicado a um cliente esteja adequado ao seu perfil de risco. Essa prática é conhecida no mercado pelo termo em inglês, suitability.
Em resumo, a norma que regulamenta o suitability determina que os profissionais do mercado não podem recomendar produtos, realizar operações ou prestar serviços sem que verifiquem sua adequação ao perfil do cliente.
Esses profissionais devem verificar se o produto, serviço ou operação é adequado aos objetivos de investimento do cliente, se a situação financeira do cliente é compatível com o produto, serviço ou operação, e ainda se o cliente possui conhecimento necessário para compreender os riscos relacionados ao produto, serviço ou operação.
Essa obrigação abrange os investimentos no mercado de valores mobiliários, o que inclui fundos de investimentos, ações, fundos imobiliários, debêntures, Certificados de Operações Estruturados etc.
Na prática, para realizar essa verificação, as instituições solicitam ao cliente que preencham o chamado formulário de Análise do Perfil do Investidor (API), documento que contêm uma série de perguntas a respeito do cliente e que, conjuntamente com as suas informações cadastrais, é utilizado para classificar o investidor como conversador, moderado ou arrojado, e a partir daí fazer as recomendações cabíveis.
A API é uma proteção ao investidor, e pode evitar que ele aporte recursos em investimentos que não estejam adequados aos seus objetivos e perfil de risco. Portanto, todo investidor deve preencher o formulário antes de realizar qualquer investimento, e principalmente, ser o mais honesto e transparente possível, para que o seu perfil represente de fato a realidade.
Em regra, é vedada a recomendação de produtos ou serviços ao cliente quando não adequados ao perfil, ou caso não sejam obtidas as informações que permitam a identificação do perfil do cliente, ou ainda se as informações relativas ao perfil do cliente não estejam atualizadas.
No entanto, a própria regulamentação admite hipóteses em que essas operações possam ocorrer, desde que o cliente ordene a realização e os profissionais, antes da primeira operação: alertem o cliente acerca da ausência ou desatualização de perfil ou da sua inadequação, com a indicação das causas da divergência; e obtenham declaração expressa do cliente de que está ciente da ausência, desatualização ou inadequação do seu perfil.
Esses alertas ou declarações, normalmente estão nos contratos assinados pelo cliente ou mesmo em e-mails e telefonemas gravados. Portanto, os investidores devem estar sempre atentos ao que assinam e às operações que autorizam.
Descobrir seu perfil pode ajudá-lo na escolha da aplicação mais adequada, desde que esta informação seja utilizada apenas como orientação (e não como verdade absoluta) e que sejam tomadas as precauções necessárias, antes e ao longo do investimento.
Assim, a título de exemplificação, podemos dizer que investimentos como Fundos de Renda Fixa, especialmente os Simples e Referenciados, Caderneta de Poupança, Certificados de Depósito Bancários – CDB, de bancos tradicionais, Títulos Públicos pós-fixados, entre outros, são mais compatíveis com investidores de perfil conservador.
No entanto, alguns investimentos, tais como Fundos Cambiais, Fundos de Renda Fixa, Fundos Multimercado, Ações e Debêntures, poderão ser considerados moderados ou arrojados dependendo, entre outros fatores, da política de investimento e do risco avaliado.
Fonte: CVM
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