
Utilizar o orçamento doméstico
O hábito de registrar as despesas e receitas é fundamental para entender onde e como o dinheiro está sendo gasto. Mas de nada adianta chegar ao final de um período, olhar o resultado consolidado do registro, e não tomar nenhuma atitude.
Imagine uma família que já criou o hábito de registrar todas as suas receitas e despesas. Ao final de um mês, ela fecha o seu fluxo de caixa e percebe que gastou mais do que poderia. Além disso, ela sente que gasta muito em alimentação e pouco em lazer.
Começa o mês seguinte, essa família continua anotando todos os seus gastos e receitas e, ao final, novamente percebe que gastou mais do que deveria e ainda acredita que gasta muito com alimentação e pouco com lazer. E assim por diante.
O que se quer mostrar aqui é que ficar apenas registrando as receitas e despesas não será suficiente para fazer essa família mudar de atitude e de hábitos, porque é como se ela estivesse somente olhando no retrovisor, sempre olhando para trás. Mas é preciso olhar para frente, planejar. Por isso o hábito de registrar as receitas e despesas, embora necessário, não é suficiente.
Se o resultado é deficitário ou neutro, é necessário encontrar espaço para reduzir despesas para que ele se torne superavitário. E é aqui que está o grande desafio, porque é comum que o estilo de vida das pessoas comprometa quase toda a renda, quando não mais.
Seguindo o exemplo das compras de mercado, chegou a hora de responder à pergunta: qual é a sua meta, o seu objetivo de gastos com compras de mercado para este mês? E para os próximos?
Ou seja, é preciso parar, olhar para os registros de um ou mais períodos e planejar o futuro. É importante pensar antes de gastar, e programar, baseado em uma previsão de receitas, em quais categorias de despesas se pretende gastar, quais reservas financeiras construir, e quanto alocar em cada uma delas.
Esse hábito é caracterizado pelo uso de uma ferramenta bastante conhecida em finanças pessoais, chamada ORÇAMENTO DOMÉSTICO.
O que é o Orçamento Doméstico?
Conceito: Orçamento doméstico é uma projeção, mês a mês, da expectativa de receitas de uma unidade familiar e do planejamento de como utilizá-la, considerando as diferentes categorias de despesas, e as reservas financeiras programadas.
Portanto, o orçamento doméstico é uma ferramenta para as famílias projetarem o seu fluxo de caixa futuro, para que se possa decidir de antemão a forma como a renda será dividida entre poupança e consumo, e em quais categorias de despesa ela será utilizada.
Trata-se de um hábito essencial, pois, como a renda ainda não foi utilizada, como ainda se trata apenas de uma projeção, é possível perceber com antecedência o resultado do seu fluxo de caixa para períodos futuros e, dessa forma, tomar as providências necessárias para adequar o seu consumo antes que ele de fato aconteça.
A elaboração do orçamento doméstico
A elaboração do orçamento doméstico pode utilizar a estrutura básica do fluxo de caixa, incluindo todas as categorias de registro. No orçamento, porém, há dois componentes adicionais. Um deles é o prazo, usualmente mensal, que projeta os valores futuros de cada categoria por um período longo (o ideal é que seja de no mínimo um ano).
Além disso, é aconselhável que cada mês seja subdividido em duas colunas, uma que inclui os valores previstos e outra que apresenta os valores de fato gastos, ou seja, o fluxo decaixa propriamente dito daquele período, que as famílias irão registrar periodicamente. Enquanto na coluna “previsto”, é registrado o orçamento projetado, na coluna “realizado” é feito o controle do fluxo de caixa, como visto no tópico anterior.
É aqui que o fluxo de caixa e o orçamento praticamente se tornam uma ferramenta só. Ou seja, na prática, quando se começa a registrar as receitas e despesas, o fluxo de caixa se apresenta como um documento separado, inicial, que permite uma primeira visualização e análise de como a renda está sendo utilizada. Em um segundo momento, no entanto, quando se começa a trabalhar com o orçamento doméstico, o fluxo de caixa praticamente se integra ao orçamento.
E é assim que deve ser, porque é um mecanismo para acompanhar se o uso da renda (fluxo de caixa) está de acordo com o programado (orçamento). Essa é a essência do controle financeiro.
A base do controle financeiro está na capacidade de programar a utilização da renda para períodos futuros (orçamento), e acompanhar esse planejamento periodicamente, por meio do registro e da análise das receitas e das despesas (fluxo de caixa).
Ferramentas para utilização do orçamento doméstico
Assim como no caso do fluxo de caixa, as formas mais comuns para elaborar e manter um orçamento doméstico são: as anotações em cadernetas e cadernos; as planilhas eletrônicas; e os sistemas e aplicativos de finanças pessoais.
Cada uma delas, suas características, vantagens e desvantagens, já foram abordadas no tópico anterior que tratou do fluxo de caixa. Na prática, o aconselhável é utilizar uma ferramenta que permita utilizar conjuntamente o orçamento doméstico e o fluxo de caixa, para que se possa potencializar o controle financeiro.
A importância do orçamento doméstico
Um das vantagens do orçamento doméstico é que ele permite uma alocação mais eficiente da renda. O planejamento que é feito para a elaboração do orçamento faz com que o uso da renda seja mais racional, de maneira que categorias que geram mais utilidade ou bem -estar recebam a maior parte dos recursos.
Imagine, por exemplo, uma família, que ainda não trabalhava com orçamento, e que, após registrar suas despesas, se assustou com o montante gasto com alimentação e transporte. Para essa família, certamente seria mais eficiente, ou geraria mais bem-estar, se parte desses gastos fossem direcionados para outra categoria, como lazer.
Em economia, quando isso acontece, diz-se que não se está maximizando a utilidade. Isso significa que, dada uma renda, pequenas alterações na forma como ela é utilizada pode gerar um maior bem-estar.
A pergunta é: porque a renda é utilizada de forma ineficiente? Em geral, isso acontece porque o consumo não é planejado. Quando não há um objetivo, uma meta, um planejamento, as pessoas se tornam mais propensas a consumir por impulso, e acabam consumindo uma cesta de produtos e serviços que não necessariamente representam a melhor opção.
A elaboração do orçamento de certa maneira força as pessoas com antecedência a pensarem sobre o uso da sua renda, a estabelecer objetivos e metas e, assim, as tornam mais propensas a controlar as suas emoções no consumo do dia a dia.
Suponha por exemplo dois homens, ambos com a mesma idade e a mesma renda, e que possuem os mesmos gostos. Um deles não utiliza o orçamento doméstico, recebe o salário e simplesmente vive o mês. O outro possui um orçamento, um plano bem definido de como pretende utilizar o seu dinheiro.
Os dois estão caminhando em um shopping, passam por uma vitrine de uma loja de acessórios masculinos, e se deparam com um belo relógio ou óculos bacana. Qual dos dois estaria mais suscetível a comprar? Sem dúvida que é o homem que não utiliza o orçamento. Isso porque a falta de objetivos e de um plano o torna mais propenso a consumir por impulso.
Vejam que isso não significa que o homem que tem orçamento não irá comprar um relógio ou óculos. A questão é que esse homem primeiro planeja a sua compra e, se um relógio e óculos estiverem entre as suas prioridades, ele irá sim comprá-los, mas seguindo o seu plano, e não por impulso.
Portanto, gastar sem propósito, sem objetivos claros e sem um planejamento, pode fazer as pessoas: (i) comprar por impulso, privilegiando a emoção e não a razão; (ii) e alocar a sua renda em bens ou serviços que não necessariamente são os melhores para a sua família.
Por fim, mas não menos importante, o uso do orçamento doméstico torna evidente a limitação dos recursos financeiros da família. Como já foi apresentado neste módulo, um dos aspectos fundamentais do controle financeiro é viver dentro das possibilidades, é respeitar a disponibilidade de renda da família.
Não há milagre, o estilo de vida das pessoas, e a sua capacidade em construir reservas ou mesmo em assumir dívidas, é totalmente limitado pela renda. No dia a dia é muito fácil perder o controle, considerando a facilidade atual dos meios de pagamento (cartões de crédito, por exemplo), e do crédito.
O processo de criação de orçamento mostra claramente até onde se pode chegar em relação ao consumo, de maneira a evitar surpresas. Isso porque, na elaboração do orçamento consegue-se perceber de antemão qual seria o resultado em cada um dos meses, se os gastos forem os planejados. Assim, pode-se repensar as despesas nos meses em que o resultado se apresentar negativo ou nos casos em que as reservas não forem suficientes.
É evidente que esses ajustes dependerão de decisões difíceis e, em alguns casos, sacrifícios terão que ser feitos sim. Mas, antes, pense um pouco e reflita sobre o seu comportamento de consumo, porque só o hábito de mudar um pouco a forma como tomamos nossas decisões de consumo já pode ajudar muito nesse processo.
Vimos que controle financeiro está relacionado a três hábitos fundamentais: registrar todas as receitas e despesas, ou controlar periodicamente o fluxo de caixa da família; planejar esse fluxo para um período de tempo futuro, por meio do uso do orçamento doméstico; e adquirir um comportamento de consumo consciente.
Estudamos com detalhes os dois primeiros hábitos, e vimos que são essenciais não apenas porque nos permitem organizar melhor as nossas finanças, e evitar ou reduzir o endividamento, mas também porque nos ajudam a construir reservas financeiras, todos componentes essenciais do bem-estar financeiro.
Controle financeiro é, portanto, essencial para a melhoria do bem-estar financeiro. O último hábito, relacionado ao comportamento de consumo, será apresentado em módulo específico.
Fonte: INVESTIDOR.GOV
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