Aposentadoria complementar
Quando falamos de objetivos, citamos imóveis, móveis, carros, viagens, educação entre outros. Mas há um objetivo que deveria ser considerado por qualquer família, até então não mencionado: a aposentadoria complementar.
Por que preciso pensar em aposentadoria complementar?
De 1940 a 2015, a esperança de vida no Brasil aumentou 30 anos, passando de 45,5 anos para 75,5 anos . Portanto, estamos vivendo cada vez mais.
O problema é que, com o passar dos anos, a nossa capacidade e/ou vontade produtiva vai se reduzindo. Chega um momento em que ou queremos parar de trabalhar ou problemas de saúde ou a falta de oportunidades nos obrigam a parar. Mesmo aqueles que querem e se esforçam a continuar trabalhando muitas vezes não conseguem manter o mesmo ritmo de antes e produzem bem menos. Então, como se sustentar nessa fase da vida?
A primeira resposta que vem à mente de muitos é a previdência pública. De fato, todos os trabalhadores, pelo menos os formais, são obrigados a contribuir para o sistema de previdência pública, seja ele o regime geral ou o regime próprio de servidores públicos. Dessa forma, quando chega o momento da aposentadoria, basta dar entrada na “papelada” e começar a receber os benefícios previdenciários, certo? Bom, algumas reflexões são importantes aqui.
Para começar, é importante lembrar que a maior parte desses regimes atualmente possui um teto, ou seja, um valor máximo que funciona tanto como base para as contribuições quanto para o valor dos benefícios de aposentadoria. Isso significa que quem tem salários acima desse teto, ao se aposentar passa a receber benefícios inferiores ao seu salário na ativa. Para esses, portanto, ou pelo menos para os que desejam manter o seu padrão de vida, não resta dúvida: a aposentadoria complementar é necessária.
Mas mesmo os que recebem até o limite do teto deveriam considerar um planejamento complementar para a aposentadoria. O que acontece é que os sistemas de aposentadoria pública são solidários, ou seja, as contribuições daqueles que estão trabalhando devem “cobrir” os benefícios de quem está aposentado. Mas a solvência desse modelo depende muito da relação entre a quantidade de trabalhadores ativos e a quantidade de aposentados.
Se há um aumento no número de idosos e se eles vivem mais tempo, a conta pode não fechar, se a quantidade de trabalhadores ativos não crescer na mesma proporção. Esse cenário tem sido enfrentado por muitos países, incluindo o Brasil, o que tem pressionado as contas públicas, e fazendo com que os sistemas de previdência pública passem por reformas mais profundas, pegando de surpresa aqueles que contavam com o sistema para a sua aposentadoria.
Mesmo que não ocorram mudanças significativas, há que lembrar que o valor do benefício de aposentadoria pode depender de variáveis como o tempo de contribuição e a expectativa de vida, de maneira que nem sempre o valor que se imagina receber será exatamente o valor recebido.
Ou seja, os benefícios da aposentadoria pública são apenas expectativas de ganhos futuros que podem não se concretizar exatamente como o planejado. Portanto, mesmo aqueles que recebem até o valor do teto deveriam considerar o planejamento de sua aposentadoria complementar.
Outra solução levantada por alguns é poder contar com a ajuda de fi lhos. Para esses que imaginam que poderão contar com a ajuda dos fi lhos nessa fase, mais uma vez as mudanças demográficas trazem preocupações. Na década de 80, a média do número de fi lhos por casal era de 4,35. Hoje é de apenas 1,94 . Ou seja, se antes havia em média 4,35 fi lhos para “cuidar” dos pais, atualmente esse número é de apenas 1,9, o que faz o desafio ser bem maior.
Assim, qualquer que seja a composição de sua renda, ou o modelo a que você está sujeito no que se refere à previdência pública, sugere-se que você inclua entre os seus objetivos de vida ter uma velhice tranquila. E para isso é importante poupar para a aposentadoria complementar.
E quanto antes melhor. Porque, como se trata de um objetivo de mais longo prazo, o tempo pode trabalhar a nosso favor. Para se ter uma ideia, veja na tabela abaixo o quanto você acumularia, aproximadamente , em diferentes prazos, se guardasse R$ 100,00 por mês, considerando uma taxa de juros reais de 0,33% ao mês.
Prazo--- ---Montante Acumulado (valores aproximados)
05 anos R$ 6.700,00
10 anos R$ 14.800,00
15 anos R$ 24.700,00
30 anos R$ 69.200,00
35 anos R$ 90.900,00
Taxa de juros reais é aquela que se espera conseguir (ex-ante) ou a que de fato foi obtida (ex-post) em um determinado investimento depois de descontada a inflação do período. No planejamento para a aposentadoria, assim como em outros que envolvem longo prazo, é muito importante entender e utilizar o conceito de taxas de juros reais, porque, caso contrário, pode-se chegar a conclusões erradas, devido à inflação.
Por isso, comece a planejar a sua aposentadoria o quanto antes.
O planejamento da aposentadoria
O planejamento da aposentadoria complementar envolve a reflexão sobre questões importantes e algumas vezes controversas.
Quanto preciso para viver a aposentadoria?
Durante muito tempo, utilizou-se uma regra de bolso que calculava a renda mensal necessária para a aposentadoria como sendo igual a 70 ou 80% do último salário. Essa conta se baseava na crença de que as pessoas têm menos despesas na aposentadoria. Mas essa regra pode ser bastante arriscada.
Na prática, as despesas podem ser iguais ou até maiores. Isso ocorre por uma série de razões. As pessoas nessa fase da vida não gostariam de reduzir o seu padrão de vida. Querem continuar frequentando os mesmos lugares, continuar morando da mesma forma. Em alguns casos desejam manter alguns benefícios que antes eram custeados pelas empresas para as quais trabalhavam. Desejam mais lazer. Os gastos com saúde, em geral sobem significativamente.
Pense nisso quando estiver refletindo sobre o quanto precisará para viver a sua aposentadoria. Pode ser arriscado estabelecer patamares abaixo de 100% do salário da ativa. Uma alternativa é simular um fluxo de caixa anual, como se estivesse começando essa fase da sua vida. Exclua aquelas despesas que sabe com certeza que não terá mais. Pense nos gastos com saúde. Observe atualmente quanto as pessoas mais idosas gastam com saúde. Lembre-se de seu planejamento de vida e inclua as despesas relacionadas ao estilo de vida e lazer que desejaria ter na aposentadoria. Seja sempre prudente.
Como custear o estilo de vida durante a aposentadoria?
Definida a renda necessária para a aposentadoria, é hora de pensar em como custeá-la. Aqui estamos falando das diferentes fontes de renda que se pode ter nessa fase da vida.
Uma delas, como já dito acima é a previdência pública. Sim, deve-se considerá-la, evidentemente. Mas lembre-se, seja prudente ao estimar o quanto você receberá de benefícios previdenciários. Avalie as possibilidades relacionadas ao tempo de contribuição e idade mínima, e o quanto isso pode impactar o valor do benefício a receber.
Considere consultar o órgão responsável pelo seu sistema de previdência pública, ou um especialista, para compreender adequadamente as regras a que está sujeito, seus direitos e as formas de cálculo dos benefícios a receber.
Outra possibilidade, como alguns planejam, é continuar trabalhando. Essa opção tem sido cada vez mais considerada não apenas porque complementa a renda, mas também porque pode trazer aspectos positivos em relação à vida social. Mas há diversos riscos a se considerar. Uma coisa é utilizar o trabalho em tempo parcial como forma de complemento de renda, outra coisa é continuar trabalhando tempo integral por necessidade de sobrevivência.
Outro ponto relevante nesse sentido tem a ver com o tipo de atividade desenvolvida. Quanto mais o seu trabalho depender de força e vigor físico, menor é a probabilidade de que você consiga desempenhá-lo com destreza durante a aposentadoria. Nesse caso, pode-se considerar outras formas de trabalho, mas para isso será preciso treinamento e oportunidade. Ou seja, há riscos da mesma forma. Assim, é preciso ter muito cuidado e prudência ao se considerar o trabalho como fonte de renda para a aposentadoria.
E por último, mas não menos importante, está a renda proveniente da previdência complementar privada. Esta fonte de recursos é proveniente da formação de uma reserva financeira própria acumulada ao longo de anos de trabalho, que, no futuro, é utilizada para complementar a renda da aposentadoria.
Existem outras possíveis fontes de renda para a aposentadoria, mas, por serem muito específicas e devido ao escopo deste material, não serão aqui abordadas.
Esse ponto é relevante no planejamento da aposentadoria, porque uma vez definido o quanto será preciso de renda, e identificada de forma prudente as principais fontes de recursos, como a previdência privada, calcula-se a renda complementar como a diferença entre elas. Por exemplo, considerando apenas a previdência pública como fonte de recursos, estima-se uma despesa na aposentadoria igual a X e espera-se receber Y de benefício previdenciário do sistema público, então a renda complementar será igual a Z, sendo Z = X – Y.
Como planejar e construir essa renda complementar?
A questão que resta agora é: como conseguir essa renda complementar Z? Na prática, há diferentes maneiras de se planejar a previdência complementar.
Em alguns casos, as próprias empresas empregadoras, sabendo da importância do assunto, oferecem aos seus empregados, como benefício, a possibilidade de participarem do chamado fundo de pensão da empresa. A grande vantagem desse modelo é que para cada real investido pelo empregado, e até determinado percentual do salário, a empresa patrocinadora investe também um determinado montante (às vezes o mesmo valor) para o empregado. Esses são os chamados modelos de previdência complementar fechada.
Outro modelo comum, para os que não podem participar de fundos de pensão, é a contratação de um plano de previdência complementar aberta. Nesse modelo, porém, não há contrapartida de um patrocinador. Esses planos são criados e gerenciados por empresas especializadas, as chamadas entidades abertas de previdência complementar. São encontrados em diversos modelos, para diferentes perfis e interesses. Uma vantagem desse modelo é que a gestão dos investimentos é realizada por profissionais e no momento da aposentadoria pode-se optar por diferentes formas de renda. A desvantagem é que tem um custo, cobrado como um taxa de administração ou ainda por outros meios, como taxa de carregamento etc.
Para conhecer mais sobre previdência complementar fechada, sugere-se consulta ao site da PREVIC, Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Para saber mais sobre previdência complementar aberta, sugere-se consulta ao site da SUSEP, Superintendência de Seguros Privados.
Mas sempre é possível também, e esse é outro modelo que pode ser utilizado, construir a própria reserva para a aposentadoria. O sistema é muito similar aos demais. Ou seja, pouco a pouco, em geral, mês a mês, direciona-se um determinado montante para uma reserva financeira que será acumulada ao longo dos anos. No momento da aposentadoria, utiliza-se o montante acumulado para complementar a renda da aposentadoria.
A grande diferença nesse modelo, é que toda a gestão da aposentadoria é realizada pelo próprio indivíduo. E isso envolve decisões muitas vezes complexas, como o cálculo do montante necessário para conseguir a renda complementar desejada, onde investir, como acompanhar, como transformar em renda no momento da aposentadoria, além de cuidados com a inflação. A vantagem é não ter que pagar as taxas normalmente cobradas das instituições, liberdade para usar e transferir os valores entre outros.
Para os que optam por esse modelo, já existem também algumas plataformas eletrônicas que ajudam o indivíduo a responder e a administrar grande parte desses desafios.
Qual modelo utilizar cabe a cada um avaliar e decidir. O mais importante é se conscientizar sobre a importância de ter uma aposentadoria complementar, refletir sobre as questões necessárias para um bom planejamento e, principalmente, começar desde já a poupar para esse fim.
Aprendemos sobre a importância de poupar, de construir reservas financeiras para emergências e para a conquista de nossos objetivos, incluindo aí a liberdade financeira e a aposentadoria complementar.
Vimos que esse é um dos caminhos mais eficientes para se conseguir tranquilidade financeira e para se alcançar aquilo o que realmente importa em nossas vidas, aspectos relevantes do nosso bem-estar financeiro e, consequentemente, do nosso bem-estar geral.
Nesse processo, torna-se fundamental o planejamento, um plano prático de como formar essas reservas. Assim, o ponto mais relevante é “encaixar” essa previsão de reservas no orçamento doméstico, para que seja possível buscar um equilíbrio entre o estilo de vida presente, a tranquilidade financeira e os objetivos de vida futuros.
Essa tarefa não é fácil, mas é possível. E, para ajudar, é fundamental assumir uma postura de consumo mais consciente e racional.
Fonte: INVESTIDOR.GOV
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